Varizes não tratadas são a principal causa de Insuficiência Venosa Crônica grave, podendo evoluir para Trombose Venosa Profunda (TVP), Embolia Pulmonar e Úlceras de perna. A estagnação do sangue (estase) favorece a formação de coágulos e a inflamação crônica da pele. Estudos indicam que pacientes com varizes grossas têm até 5 vezes mais risco de desenvolver trombose venosa superficial em comparação à população saudável.

Introdução: “É só uma veia, depois eu vejo…”

Esta é a frase mais perigosa que ouvimos no consultório. Muitos pacientes convivem com varizes por 10, 20 anos, acreditando que, se não dói muito, não é grave. O problema é que a doença venosa é silenciosa e progressiva.

Imagine um rio onde a água para de correr e começa a ficar represada. Com o tempo, essa água parada cria lodo, transborda e afeta todo o ecossistema ao redor. Nas suas pernas, acontece o mesmo: o sangue estagnado (estase) inflama os tecidos, escurece a pele e predispõe à coagulação.

Neste artigo de alerta, revisado pelo Dr. Ricardo Tavares, vamos detalhar o que acontece com seu corpo se você ignorar o tratamento, explicando a rota que leva das simples varizes até a temida trombose.


1. Trombose Venosa Profunda (TVP): O Risco Invisível

A Trombose é a formação de um coágulo (trombo) dentro de uma veia profunda. É uma emergência médica.

Qual a relação com varizes?

O sangue precisa de movimento. Nas varizes, o sangue circula lentamente (estase). Essa lentidão é um dos três fatores da “Tríade de Virchow” que causam trombose. Se você tem varizes e passa por um período de imobilidade (uma viagem longa de avião, uma cirurgia ou até uma gripe forte de cama), o risco desse sangue “talhar” e virar um coágulo é muito maior.

O Perigo da Embolia Pulmonar

O maior medo dos médicos não é o trombo na perna em si, mas o fato de que ele pode se soltar. Se esse fragmento de coágulo viajar pela circulação, ele vai parar direto no pulmão, bloqueando a respiração. Isso é a Embolia Pulmonar, um quadro gravíssimo que pode ser fatal em minutos.

2. Tromboflebite Superficial (Varicoflebite)

Diferente da Trombose Profunda, a Flebite ocorre nas veias superficiais (nas próprias varizes visíveis).

Como identificar?

  • A varize fica dura, parecendo um cordão de pedra.
  • A pele fica vermelha e quente no local.
  • A dor é intensa e localizada (dói ao tocar).

Embora menos letal que a TVP, a flebite é perigosa porque o coágulo pode “migrar” do sistema superficial para o profundo. Pacientes com varicoflebite precisam de anticoagulação imediata para evitar essa progressão.


Diferença entre Trombose e Flebite

Muitos confundem as duas condições. Entenda a gravidade de cada uma:

CritérioFlebite (Superficial)Trombose (Profunda – TVP)
LocalNas varizes visíveis (pele)Nas veias musculares (invisível)
Sintoma PrincipalVermelhidão, calor e cordão duroInchaço súbito da perna e dor forte
Risco de VidaModerado (pode evoluir)Alto (Risco de Embolia)

3. Úlcera Varicosa: A Ferida que Não Fecha

A úlcera não aparece do dia para a noite. A pele “avisa” meses ou anos antes que vai romper. Conheça a “Marcha da Úlcera”:

  1. Edema Crônico: O tornozelo vive inchado.
  2. Dermatite Ocre: O ferro do sangue vaza e “tatu” a pele de marrom/escuro.
  3. Eczema de Estase: A pele fica seca, descama e coça muito.
  4. Lipodermatoesclerose: A gordura sob a pele inflama e endurece. A perna fica com formato de “garrafa de champanhe invertida” (fina no tornozelo e dura).
  5. Úlcera Ativa: A pele, já morta e sem nutrição, abre uma ferida espontânea ou após uma batida leve.

Uma vez aberta, a úlcera venosa é úmida, dolorosa e pode levar meses (ou anos) para cicatrizar se a varize não for tratada. O impacto na qualidade de vida é devastador.

4. Varicorragia (Sangramento)

As varizes têm paredes muito finas e pressão alta. Um trauma banal, como esbarrar no box do banheiro ou coçar a perna com força, pode romper a veia.

O sangramento costuma ser volumoso e assusta muito (“parece um chafariz”).
O que fazer? Mantenha a calma, deite-se, eleve a perna acima do nível do coração e comprima o local com uma toalha limpa por 10 minutos. O sangramento vai parar. Depois, busque o hospital.


Como evitar o pior?

Se você já tem varizes, a única forma de zerar o risco dessas complicações é tratando a doença base. O uso de meias elásticas ajuda a aliviar os sintomas e reduz levemente o risco de trombose, mas não “desentope” nem elimina a veia doente.

Os tratamentos modernos como Endolaser e Espuma são minimamente invasivos justamente para permitir que pacientes idosos ou com risco cirúrgico possam se tratar antes que a úlcera apareça.


Perguntas Frequentes sobre Riscos (FAQ)

1. Tenho varizes grossas, vou ter trombose com certeza?

Não é uma certeza, mas uma probabilidade aumentada. Ter varizes é um fator de risco. Se somado a outros fatores (obesidade, anticoncepcional, tabagismo ou idade avançada), a chance de um evento trombótico multiplica exponencialmente.

2. A úlcera varicosa tem cura?

Sim, mas curativo não cura úlcera. O que cura a úlcera é tratar a varize que está “alimentando” a ferida. Hoje usamos espuma densa guiada por ultrassom para fechar a veia doente sem precisar cortar a pele perto da ferida infectada.

3. Posso viajar de avião tendo varizes?

Pode, mas com cuidados. Em voos com mais de 4 horas, use meias de compressão prescritas, beba muita água e caminhe no corredor a cada hora. Consulte seu angiologista antes de viajar para avaliar a necessidade de anticoagulante profilático.

4. Minha perna está ficando escura no tornozelo. Tem volta?

A mancha escura (dermatite ocre) é como uma tatuagem feita pelo ferro do sangue. O tratamento das varizes impede que ela piore e que a úlcera abra, mas o clareamento total da pele é difícil. Quanto antes tratar, menor a mancha.

5. Anticoncepcional causa varizes e trombose?

Pílulas com estrogênio aumentam o risco de trombose, especialmente em mulheres que já têm varizes ou fumam. Se você tem varizes, converse com seu ginecologista sobre métodos não hormonais (como DIU de Cobre) ou pílulas só de progesterona.


Referências Bibliográficas

1. Chang SL, et al. Association of Varicose Veins With Incident Venous Thromboembolism and Peripheral Artery Disease. JAMA. 2018.

2. Nicolaides AN. Investigation of chronic venous insufficiency: A consensus statement. Circulation. 2000.

3. Robertson L, et al. Epidemiology of chronic venous ulcers. Br J Surg. 2009.

4. Diretrizes Brasileiras de Profilaxia e Tratamento do Tromboembolismo Venoso (SBACV). J Vasc Bras. 2020.