Varizes Pélvicas são veias dilatadas ao redor do útero, ovários e trompas, que causam a Síndrome de Congestão Pélvica. A condição manifesta-se principalmente através de dor crônica no baixo ventre que piora ao ficar em pé e após a relação sexual (dispareunia), além de sensação de peso na região genital. O tratamento padrão-ouro atual é a Embolização, um procedimento minimamente invasivo via cateterismo.
Introdução: “Disseram que minha dor era psicológica”
Esta é a frase mais triste e comum que ouvimos de pacientes com varizes pélvicas. Muitas mulheres peregrinam por ginecologistas, urologistas e gastroenterologistas investigando uma dor no “pé da barriga” que dura mais de seis meses.
Fazem ultrassons comuns que dão normal, exames de urina negativos e acabam recebendo diagnósticos vagos como “intestino irritável” ou, pior, que a dor é emocional. No entanto, a causa pode ser vascular.
Assim como você tem varizes nas pernas, é possível ter varizes “internas”, ao redor dos órgãos reprodutivos. Neste guia, revisado pelo Dr. Ricardo Tavares, vamos lançar luz sobre essa condição subdiagnosticada e mostrar que existe tratamento definitivo sem a necessidade de retirar o útero.
O que é a Síndrome de Congestão Pélvica?
As veias da pelve (que drenam o útero e os ovários) precisam levar o sangue de volta para o coração, subindo contra a gravidade. Quando as válvulas dessas veias falham, o sangue reflui e se acumula na região pélvica.
Esse “engarrafamento” de sangue dilata as veias ovarianas, que podem chegar a calibres impressionantes (parecidos com as varizes grossas das pernas), comprimindo nervos e órgãos vizinhos. Isso gera uma inflamação crônica e a dor característica.
Sintomas: Como identificar se a dor é vascular?
A dor das varizes pélvicas tem características muito específicas que ajudam a diferenciá-la de cólicas comuns ou endometriose:
1. A Dor Gravitacional
É uma dor que piora ao longo do dia. A paciente acorda bem, mas após horas em pé ou sentada no trabalho, sente um peso insuportável no baixo ventre. Ao deitar e elevar o quadril, a dor alivia quase instantaneamente (pois o sangue escoa).
2. Dispareunia (Dor na Relação)
Não é uma dor superficial, mas uma dor profunda durante e, principalmente, após a relação sexual. O ato sexual aumenta o fluxo de sangue na região pélvica. Como as veias já estão doentes e congestionadas, esse afluxo extra causa uma sensação de peso e dor que pode durar horas ou até o dia seguinte após o coito.
3. Varizes Vulvares e na Raiz da Coxa
Muitas vezes, as varizes pélvicas “vazam” para fora. O aparecimento de varizes na vulva (grandes lábios), na região glútea ou na parte interna superior da coxa é um forte indício de que o problema vem de dentro da barriga.
Varizes Pélvicas ou Endometriose?
Esta é a maior confusão diagnóstica. Ambas causam dor pélvica crônica. Veja as diferenças principais:
| Característica | Endometriose | Varizes Pélvicas |
|---|---|---|
| Padrão da Dor | Cíclica (Piora muito na menstruação) | Diária (Piora ao fim do dia/em pé) |
| Relação Sexual | Dor aguda na penetração profunda | Dor de peso/congestão APÓS o ato |
| Sintomas Urinários | Dor ao urinar na menstruação | Urgência urinária (bexiga cheia de varizes) |
Atenção: É possível ter as duas doenças ao mesmo tempo. Por isso a avaliação vascular é essencial.
Causas Complexas: May-Thurner e Quebra-Nozes
Além da gravidez (que dilata as veias naturalmente), existem causas anatômicas que precisam ser investigadas:
- Síndrome de May-Thurner: É uma compressão anatômica onde a artéria ilíaca “esmaga” a veia ilíaca esquerda contra a coluna vertebral. Isso dificulta a drenagem da perna esquerda e da pelve.
- Síndrome de Nutcracker (Quebra-Nozes): A veia renal esquerda é comprimida entre duas artérias (a aorta e a mesentérica superior), causando refluxo para o ovário esquerdo.
Essas síndromes exigem tratamento especializado, muitas vezes com colocação de stent.
Como é feito o Diagnóstico?
O ultrassom transvaginal comum muitas vezes não vê as varizes porque a paciente faz o exame deitada (e deitada o sangue escoa e as varizes “murcham”).
O protocolo ideal inclui:
- Eco-Doppler Transvaginal com Manobra de Valsalva: O médico pede para a paciente fazer força (tosse ou sopro) para ver o refluxo.
- Angio-Ressonância ou Angio-Tomografia: Permite ver a anatomia completa e as compressões (May-Thurner).
- Flebografia Pélvica: O exame definitivo (Cateterismo) que confirma e já trata o problema.
O Tratamento: Embolização de Varizes Pélvicas
Antigamente, a solução era a histerectomia (retirar o útero), uma cirurgia mutiladora. Hoje, a Radiologia Intervencionista resolve o problema com um furo na virilha ou no braço.
Como funciona a Embolização?
Sob sedação e anestesia local, inserimos um microcateter pela veia até chegar nas varizes pélvicas. Lá, liberamos pequenas molas (coils) ou uma espuma especial que fecha essas veias doentes.
- Tempo de internação: Geralmente 12 a 24 horas.
- Cortes: Nenhum (apenas um furo de agulha).
- Recuperação: Retorno às atividades em 3 a 5 dias.
- Útero e Ovários: São preservados, mantendo a fertilidade.
Perguntas Frequentes sobre Varizes Pélvicas (FAQ)
1. Quem tem varizes pélvicas pode engravidar?
Sim. A doença não impede a gravidez, mas a gestação pode piorar muito os sintomas de dor. Se a paciente já tem o diagnóstico e sente muita dor, o ideal é tratar (embolizar) antes de engravidar para ter uma gestação mais tranquila.
2. A embolização causa menopausa precoce?
Não. A embolização fecha apenas as veias doentes e dilatadas. O ovário continua recebendo sangue arterial (rico em oxigênio) normalmente e drenando pelas veias saudáveis remanescentes. A função hormonal não é afetada.
3. A dor melhora logo após o procedimento?
É comum sentir uma cólica moderada nos primeiros 3 a 5 dias pós-embolização (sinal de que as veias estão fechando). A melhora significativa dos sintomas crônicos costuma ocorrer a partir do primeiro ciclo menstrual após o procedimento.
4. Tenho varizes na vulva, preciso operar?
Varizes vulvares quase sempre são reflexo das varizes pélvicas. Tratar apenas a vulva (parte externa) sem tratar a pelve (parte interna) geralmente leva à recidiva rápida. O tratamento correto começa “de dentro para fora”.
5. O plano de saúde cobre a embolização?
Sim. A Embolização de Veias Pélvicas consta no Rol de Procedimentos da ANS (Agência Nacional de Saúde) e é de cobertura obrigatória para convênios médicos quando há indicação precisa.
Referências Bibliográficas
1. Ignacio EA, et al. Pelvic congestion syndrome: diagnosis and treatment. Semin Intervent Radiol. 2008.
2. Laborda A, et al. Endovascular treatment of pelvic congestion syndrome: visual analog scale (VAS) long-term follow-up clinical evaluation in 202 patients. Cardiovasc Intervent Radiol. 2013.
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