O refluxo venoso é o retorno anormal do sangue em direção aos pés, causado pela falha nas válvulas internas das veias. Em pernas saudáveis, o sangue sobe contra a gravidade em direção ao coração. Quando as válvulas estragam, o sangue “cai” para trás, acumulando-se nas pernas. Esse acúmulo gera aumento de pressão, inchaço, dor e a dilatação das veias superficiais, conhecidas como varizes. O Eco-Doppler é o exame capaz de enxergar e medir esse refluxo.
Introdução: “Doutor, meu exame deu refluxo na safena. É grave?”
Você vai ao laboratório, faz o seu ultrassom das pernas, pega o envelope e, ao ler o laudo, se depara com a frase: “Insuficiência venosa caracterizada por refluxo na veia safena magna”. A primeira reação de muitos pacientes é o susto. Afinal, a palavra “refluxo” costuma ser associada a problemas gástricos (azia) ou sopros no coração.
Mas, na Angiologia, o refluxo tem um significado puramente mecânico. Ele é a verdadeira raiz mecânica das varizes que você vê na sua pele.
Se você quer entender o panorama geral de como o ultrassom investiga a sua circulação, recomendamos a leitura do nosso guia principal: Eco-Doppler Venoso: O Exame Fundamental. Mas se você quer entender de uma vez por todas o que está acontecendo dentro das suas veias e por que suas pernas pesam tanto no fim do dia, este artigo, revisado pelo Dr. Ricardo Tavares, vai explicar a física do seu corpo de forma muito simples.
A Física do Corpo: A difícil missão de vencer a gravidade
Pense no trabalho que o seu corpo tem todos os dias. O coração bombeia o sangue limpo (arterial) para os pés com muita facilidade, pois a gravidade ajuda o sangue a descer. O problema é a viagem de volta.
O sangue “sujo” (venoso) precisa subir da ponta do dedão do pé até o seu peito, lutando contra a força da gravidade. Como as veias não têm um “coração” lá embaixo para empurrar o sangue para cima, a natureza criou um sistema engenhoso com dois componentes:
- A Bomba da Panturrilha (O Motor): Os músculos da batata da perna funcionam como o seu “segundo coração”. Cada vez que você pisa no chão e caminha, a panturrilha contrai e espreme as veias profundas, esguichando o sangue para cima com força.
- As Válvulas Venosas (As Portas de Mão Única): Dentro das veias, existem pequenas “portinhas” (válvulas). Quando o sangue é empurrado para cima, a porta abre. Assim que o sangue passa, a porta se fecha imediatamente com um estalo, impedindo que o sangue caia de volta para o pé.
O que é o Refluxo Venoso? (O “Elevador Quebrado”)
A Insuficiência Venosa Crônica (a doença das varizes) ocorre quando essas válvulas se desgastam, rasgam ou enfraquecem devido à herança genética, idade ou sobrecarga (como gestações ou trabalhar muito tempo em pé).
Quando a válvula não fecha direito, ela fica “frouxa”. O sangue sobe empurrado pela panturrilha, mas, logo em seguida, a porta não tranca e o sangue cai de volta (ou seja, reflui). Isso é o Refluxo Venoso.
Imagine um elevador onde o freio quebrou. O elevador sobe um andar e despenca dois. Como o sangue fica caindo constantemente, ele se acumula nas veias da perna. Esse acúmulo aumenta drasticamente a pressão da água (pressão hidrostática) lá embaixo. Para não estourar, as veias começam a dilatar, alargar e entortar. Parabéns, nasceram as varizes.
Como o Eco-Doppler consegue “ver” o refluxo?
É aqui que a tecnologia Doppler se torna espetacular. O aparelho de ultrassom não tira apenas uma foto parada da veia; ele analisa o movimento do líquido em tempo real.
Durante o exame, o cirurgião vascular pedirá que você fique em pé. Ele colocará o aparelho na sua perna e fará uma manobra simples: apertará a sua panturrilha com a mão e soltará rapidamente.
- Veia Saudável: Quando o médico aperta, o ultrassom mostra uma onda de sangue subindo (geralmente colorida de azul ou vermelho na tela). Quando ele solta a mão, a válvula se fecha instantaneamente (em menos de 0,5 segundos) e a tela fica preta. Silêncio total.
- Veia Doente (Com Refluxo): Quando o médico solta a mão, a válvula não segura. A tela do computador se enche de cor no sentido contrário e a máquina emite um som prolongado (um sopro longo, tipo “shhhhhhhh”). Isso é o sangue desabando para trás.
Lendo o Laudo: Refluxo leve, moderado ou grave?
O ultrassom mede exatamente quanto tempo o sangue fica caindo para trás. Esse tempo (medido em segundos ou milissegundos) diz ao médico a gravidade da doença:
| Grau de Refluxo | Tempo de Queda do Sangue | O que isso significa na prática? |
|---|---|---|
| Normal | Menor que 0,5 segundos. | Válvulas perfeitas e fechando rápido. Nenhuma doença diagnosticada na veia. |
| Refluxo Leve a Moderado | De 0,5 a 1,0 segundo. | A válvula já está frouxa. O paciente sente peso e cansaço no fim do dia, e já existem varizes aparentes. |
| Refluxo Grave (Importante) | Maior que 1,0 segundo (podendo durar até 3 ou 4 segundos). | A válvula está totalmente destruída (incompetente). Alto risco de inchaço severo, manchas escuras na pele e formação de feridas (úlceras venosas). |
A veia safena deu refluxo: Preciso arrancar?
Não precisa se desesperar. Se o seu Eco-Doppler diagnosticou Incompetência da Veia Safena (que é o nome técnico do refluxo total da safena), a solução hoje é muito simples e moderna.
Não precisamos mais “arrancar” a veia da sua perna com cirurgias abertas agressivas. O tratamento padrão-ouro mundial hoje é inativar essa veia doente por dentro, fechando-a sem cortes, usando a tecnologia do Endolaser ou da Escleroterapia com Espuma.
Ao selar a veia que está deixando o sangue cair, o corpo redireciona o fluxo para veias saudáveis e mais profundas, acabando imediatamente com a alta pressão e curando as dores e o inchaço. Se você já tem esse diagnóstico em mãos, converse com o seu cirurgião vascular sobre o planejamento do seu procedimento e a marcação pré-operatória, que você pode entender melhor em Mapeamento Venoso: O “GPS” da Cirurgia.
Dúvidas Frequentes sobre Refluxo Venoso (FAQ)
1. Remédios de farmácia curam o refluxo da veia?
Não. Os medicamentos flebotônicos (como Daflon, Diosmina, Venalot) aliviam os sintomas. Eles melhoram o tônus da veia, diminuindo a sensação de peso, cansaço e o inchaço. No entanto, eles não têm o poder mágico de “consertar” uma válvula que já está mecanicamente rasgada ou alargada. O refluxo anatômico só é resolvido com intervenção cirúrgica ou química.
2. O refluxo venoso pode causar trombose?
Indiretamente, sim. O sangue que reflui fica estagnado (parado) nas pernas. O sangue lento tem maior facilidade de coagular. Portanto, pacientes com insuficiência venosa crônica grave e sem tratamento têm um risco maior de desenvolver Tromboflebites Superficiais ou Trombose Venosa Profunda em comparação a pessoas com a circulação perfeita.
3. Ter refluxo significa que vou ter úlcera (ferida) na perna?
Não obrigatoriamente. A úlcera venosa é o último e mais grave estágio da doença. A maioria dos pacientes com refluxo leve a moderado terá apenas varizes e desconforto estético. Porém, se o refluxo for ignorado por décadas, a alta pressão contínua destrói a nutrição da pele (causando manchas escuras – dermatite ocre) até que a pele se rompa e forme a úlcera.
4. Meia de compressão “conserta” a válvula?
Não conserta a válvula, mas “falsifica” a cura enquanto você estiver usando. A meia esmaga a veia doente por fora, impedindo que ela dilate e que o sangue caia para baixo. É a melhor forma de proteção e alívio contínuo, mas assim que você tira a meia, o refluxo volta a acontecer. É um tratamento paliativo (de controle), não curativo.
5. Posso fazer musculação tendo refluxo na safena?
Sim, com orientação médica. Exercícios que fortalecem a panturrilha (como elevação de calcanhar) são essenciais, pois melhoram o “motor” que empurra o sangue para cima. No entanto, exercícios isométricos que aumentam exageradamente a pressão no abdome (como o Leg Press muito pesado) podem piorar o refluxo se não houver acompanhamento. O ideal é usar meias de compressão desportiva durante os treinos.
Referências Bibliográficas
1. Eberhardt RT, Raffetto JD. Chronic venous insufficiency. Circulation. 2014.
2. Meissner MH, et al. Primary chronic venous disorders. J Vasc Surg. 2007.
3. Lurie F, et al. Mechanism of venous valve closure and role of the valve in circulation: a new concept. J Vasc Surg. 2003.
4. Coleridge-Smith P, et al. Duplex ultrasound investigation of the veins in chronic venous disease of the lower limbs–UIP consensus document. Part I. Basic principles. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2006.



