O Aneurisma da Artéria Poplítea é a dilatação da principal artéria da perna, localizada logo atrás do joelho. É o tipo mais comum de aneurisma periférico (fora da aorta e cérebro). Diferente dos aneurismas abdominais que tendem a romper, o grande perigo do aneurisma poplíteo é a trombose aguda (entupimento súbito) ou embolia distal, que interrompe o fluxo de sangue para o pé, podendo levar à gangrena e necessidade de amputação se não tratado a tempo.
Introdução: Sentiu um “caroço” pulsando atrás do joelho?
Muitos pacientes descobrem esse problema por acaso: ao cruzar as pernas ou tomar banho, sentem uma bola pulsando na “dobra” de trás do joelho (fossa poplítea). A reação inicial é achar que é um cisto ou um inchaço muscular.
No entanto, se essa massa pulsa no ritmo do coração, atenção: pode ser um Aneurisma de Poplítea. Embora menos famoso que o da aorta, ele é extremamente traiçoeiro. Ele age silenciosamente, soltando pequenos coágulos para o pé até o dia em que entope de vez a circulação.
Neste artigo, revisado pelo Dr. Ricardo Tavares, vamos explicar por que você não pode ignorar esse sintoma e como salvamos a perna com cirurgias de bypass (ponte) ou stents.
Por que a artéria dilata atrás do joelho?
A artéria poplítea sofre um estresse mecânico único: ela dobra e desdobra milhares de vezes ao dia a cada passo que damos. Com o envelhecimento e a aterosclerose (placas de gordura), a parede da artéria enfraquece.
A Conexão Perigosa: Existe uma ligação forte entre aneurismas.
- 50% dos pacientes com aneurisma em uma perna têm na outra também (bilateral).
- 30% a 50% dos pacientes com aneurisma na perna também têm Aneurisma na Aorta Abdominal.
Por isso, se diagnosticamos um, somos obrigados a investigar o corpo todo.
Sintomas: O Sinal do “Dedo Azul”
Muitos aneurismas poplíteos são assintomáticos até complicarem. Quando dão sinais, eles podem ser:
1. Massa Pulsátil
O sinal clássico. Um abaulamento atrás do joelho que bate forte.
2. Claudicação Intermitente (Dor ao caminhar)
Se o aneurisma estiver parcialmente entupido com trombos, passa menos sangue. O paciente sente dor na batata da perna ao andar, que para ao descansar.
3. Síndrome do Dedo Azul (Blue Toe Syndrome)
Este é um sinal de alerta máximo. Pequenos pedaços de coágulo se soltam do aneurisma e viajam até o pé, entupindo as artérias digitais. De repente, um dedo do pé fica roxo ou azul e dolorido, mesmo com o pé quente. Isso indica que o aneurisma está instável e “chuveirando” êmbolos.
O Maior Risco: Trombose e Amputação
Diferente da aorta, que rompe e causa hemorragia, a artéria poplítea raramente rompe. O problema é a física dos fluidos: dentro do aneurisma (que é um saco dilatado), o sangue gira em turbilhão e fica lento. Sangue lento coagula.
Se formar um coágulo grande e ele bloquear totalmente a artéria (Trombose Arterial Aguda), o sangue para de chegar no pé instantaneamente.
Sintomas da Trombose Aguda (Emergência):
- Dor súbita e intensa na perna e pé.
- O pé fica pálido (branco) e gelado.
- Perda de sensibilidade (dormência).
- Incapacidade de mexer os dedos.
Se isso acontecer, temos uma janela de 6 a 8 horas para desentupir a artéria. Passado esse tempo, os músculos morrem e a amputação torna-se inevitável.
Diagnóstico: Fácil e Rápido
O diagnóstico é simples:
- Palpação: O médico experiente sente o aneurisma pulsando e compara com o outro joelho.
- Eco-Doppler: Confirma o diagnóstico, mede o tamanho e verifica se há trombos (coágulos) na parede.
- Angiotomografia: Usada para planejar a cirurgia, mostrando a anatomia detalhada.
Tratamento: Ponte de Safena ou Stent?
A indicação de cirurgia geralmente ocorre quando o aneurisma ultrapassa 2,0 cm de diâmetro ou se houver muitos trombos (coágulos) mural.
1. Cirurgia Aberta (Bypass / Ponte)
Historicamente, é o padrão-ouro. Fazemos uma incisão na perna, “desligamos” o aneurisma (amarramos a artéria antes e depois dele) e fazemos um desvio (bypass) usando um pedaço da veia safena do próprio paciente. O sangue passa pela veia, pulando a área doente.
Vantagem: A veia safena é muito resistente às dobras do joelho e dura muitos anos.
2. Tratamento Endovascular (Stent Revestido)
Técnica mais moderna. Através de um furo na virilha, colocamos um Stent Revestido (um tubo flexível) dentro do aneurisma.
Desafio: Como o joelho dobra muito, existia o risco do stent quebrar (“fratura de stent”). Hoje, usamos stents super-flexíveis específicos para a poplítea, mas a técnica ainda é reservada para anatomias favoráveis e pacientes que não podem fazer a cirurgia aberta.
Perguntas Frequentes sobre Aneurisma de Poplítea (FAQ)
1. O cisto de Baker é um aneurisma?
Não. O cisto de Baker é um acúmulo de líquido sinovial (lubrificante da articulação) atrás do joelho, comum em quem tem artrose. A diferença é que o cisto de Baker não pulsa. Porém, o ultrassom é necessário para ter certeza, pois às vezes os dois problemas existem juntos.
2. Se eu operar, vou perder a veia safena?
Na cirurgia aberta, usamos um segmento da veia safena para fazer a ponte. Isso não prejudica a circulação, pois as veias profundas assumem o retorno do sangue. Na verdade, a safena está sendo “promovida” a artéria para salvar a perna.
3. Qual o risco de perder a perna se não operar?
Se o aneurisma for grande (> 2cm) e tiver trombos, o risco de complicações isquêmicas é alto. Estudos mostram que, em pacientes que chegam na emergência já com o aneurisma trombosado (entupido), a taxa de amputação pode chegar a 30% ou 40%.
4. A recuperação da cirurgia é dolorosa?
A cirurgia aberta envolve cortes na coxa e abaixo do joelho, então há um desconforto moderado e inchaço na perna por algumas semanas. A recuperação da endovascular (stent) é muito mais rápida e menos dolorosa.
5. Posso dobrar o joelho depois de colocar Stent?
Sim. Os stents modernos (como o Viabahn) são desenhados para suportar a flexão do joelho. No entanto, orientamos evitar agachamentos extremos ou posições forçadas prolongadas para garantir a durabilidade do material.
Referências Bibliográficas
1. Dawson I, et al. Popliteal artery aneurysm repair in the endovascular era. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2013.
2. Varga ZA, et al. Popliteal artery aneurysms: A multicenter retrospective study of surgical and endovascular treatment. J Vasc Surg. 2014.
3. Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Diretrizes de Doença Arterial Periférica e Aneurismas Periféricos. J Vasc Bras. 2019.
4. Galland RB. History of the management of popliteal artery aneurysms. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2008.



