A principal diferença entre Aneurisma e Dissecção de Aorta está na integridade da parede arterial. O Aneurisma é a dilatação (inchaço) de todas as camadas da artéria, geralmente crescendo de forma lenta e silenciosa. Já a Dissecção é um rasgo súbito na camada interna (íntima), permitindo que o sangue entre na parede do vaso e separe suas camadas, criando um “falso trajeto”. Enquanto o aneurisma é uma “bomba-relógio”, a dissecção é a “explosão” imediata, exigindo socorro urgente.

Introdução: O “ataque cardíaco” que não é do coração

É muito comum ouvirmos histórias de pessoas que tiveram uma “veia estourada no peito” ou um “ataque cardíaco fulminante” que não era infarto. Na maioria das vezes, esses eventos trágicos são Dissecções de Aorta.

Embora Aneurisma e Dissecção afetem o mesmo órgão (a Aorta) e compartilhem fatores de risco (pressão alta, tabagismo), são doenças com mecânicas, sintomas e tratamentos completamente diferentes. Confundi-las pode ser fatal, pois o tratamento de uma pode agravar a outra.

Neste artigo técnico, revisado pelo Dr. Ricardo Tavares, vamos dissecar (sem trocadilhos) essas diferenças para que você entenda a gravidade de cada diagnóstico.

Anatomia: Entendendo o “Pneu” da Artéria

Para entender a dissecção, imagine que a aorta é como um pneu de carro, feita de camadas. Ela possui três túnicas:

  1. Íntima: A camada interna, lisa, por onde o sangue corre.
  2. Média: A camada muscular do meio, responsável pela elasticidade.
  3. Adventícia: A capa externa, resistente.

O que acontece no Aneurisma?

O “pneu” fica fraco e começa a fazer uma bolha para fora. Todas as três camadas dilatam juntas. É um problema de geometria e expansão.

O que acontece na Dissecção?

A camada interna (Íntima) rasga. O sangue, sob alta pressão, entra nesse rasgo e começa a descolar a camada Média, separando-a da Adventícia. É como se a banda de rodagem do pneu soltasse. É um problema de ruptura laminar.

Tipos de Dissecção: A e B (Classificação de Stanford)

Na dissecção, a localização define o destino do paciente. Usamos a Classificação de Stanford:

Stanford Tipo A (Ascendente)

O rasgo acontece na saída do coração (Aorta Ascendente). É uma emergência cirúrgica absoluta. O risco é o rasgo atingir as coronárias (causando infarto), a válvula aórtica (causando insuficiência cardíaca aguda) ou romper dentro do pericárdio (tamponamento cardíaco).

Tratamento: Cirurgia de peito aberto imediata para trocar a aorta por um tubo.

Stanford Tipo B (Descendente)

O rasgo acontece após a curva da aorta, descendo para as costas e abdome.

Tratamento: Geralmente é clínico (UTI, remédios para baixar pressão) ou Endovascular (colocação de Stent). Raramente operamos o peito aberto nesse caso.

Diferença de Sintomas: Como o paciente chega?

Enquanto o aneurisma é silencioso, a dissecção é “escandalosa”.

CaracterísticaAneurisma (Não Roto)Dissecção de Aorta
Início da DorSem dor (assintomático) ou dor lombar leve/crônica.Dor SÚBITA, máxima intensidade desde o primeiro segundo.
Tipo de DorPeso, desconforto, pulsação.Sensação de rasgo, facada ou punhalada.
LocalizaçãoAbdome ou Lombar.Peito (frente) irradiando para as costas (entre as escápulas).
Pressão ArterialGeralmente normal ou alta.Geralmente altíssima (crise hipertensiva) ou choque (se romper).

Um aneurisma pode causar uma dissecção?

Sim. Um aneurisma dilata a aorta, deixando a parede mais fina e esticada. Essa tensão excessiva facilita o rasgo da camada íntima. Portanto, ter um aneurisma é um fator de risco para ter uma dissecção.

Porém, a dissecção também pode ocorrer em aortas de tamanho normal, especialmente em pacientes com hipertensão descontrolada ou doenças genéticas como Síndrome de Marfan.

Tratamentos Diferentes para Problemas Diferentes

Para Aneurisma:

O foco é prevenir o crescimento. Se grande, colocamos uma prótese (endoprótese) para reforçar a parede e evitar que ela continue dilatando. É uma cirurgia preventiva (na maioria das vezes).

Para Dissecção:

O foco é fechar a porta de entrada do rasgo.

  • Tipo A: Cirurgia convencional (troca da aorta ascendente).
  • Tipo B: Colocamos uma endoprótese (Stent) para cobrir o rasgo inicial e “colar” as camadas da aorta novamente.

Para entender melhor a técnica do Stent, leia nosso artigo sobre Tratamento Endovascular (EVAR/TEVAR).


Dúvidas Frequentes sobre Aneurisma e Dissecção (FAQ)

1. Qual é mais grave: Aneurisma ou Dissecção?

A Dissecção Aguda Tipo A é a condição mais letal da cardiologia, com mortalidade de 1% a 2% por hora nas primeiras 48 horas se não operada. O Aneurisma (enquanto não rompe) é uma doença crônica gerenciável. Portanto, a Dissecção Aguda é mais grave no curto prazo.

2. Quem tem Síndrome de Marfan deve se preocupar?

Sim. Pacientes com Marfan têm um defeito genético no tecido elástico da aorta. Eles têm alto risco tanto de aneurisma quanto de dissecção, mesmo em idades jovens. O acompanhamento deve ser semestral.

3. Dor nas costas pode ser dissecção?

Sim. A dor clássica da dissecção da aorta descendente é uma “dor interescapular” (no meio das costas, entre as asinhas). Se for uma dor súbita e excruciante, deve-se ir ao pronto-socorro imediatamente.

4. O ultrassom vê dissecção?

Dificilmente. O ultrassom é bom para ver o diâmetro (aneurisma), mas ruim para ver a “lâmina de dissecção” (o rasgo interno), especialmente no tórax. O exame padrão-ouro para dissecção é a Angiotomografia de Aorta Total.

5. A dissecção cura sozinha?

Não cura, mas pode cronificar. Se o paciente sobrevive à fase aguda (primeiros 14 dias), a dissecção torna-se crônica. O sangue continua fluindo pelo canal falso. Esses pacientes precisam de controle rigoroso da pressão para o resto da vida para evitar que a aorta rompa.


Referências Bibliográficas

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2. Erbel R, et al. 2014 ESC Guidelines on the diagnosis and treatment of aortic diseases. Eur Heart J. 2014.

3. Nienaber CA, Clough RE. Management of acute aortic dissection. Lancet. 2015.

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