A correção endovascular de aneurisma (EVAR) é uma técnica minimamente invasiva que trata a dilatação da aorta por dentro do vaso, sem a necessidade de abrir o abdome. Através de pequenos furos na virilha, o cirurgião insere cateteres que levam uma endoprótese (um tubo de tecido e metal) até o local do aneurisma. Essa prótese cria um novo caminho para o sangue, isolando a parede doente da artéria e prevenindo a ruptura.

Introdução: É possível operar a aorta sem “abrir a barriga”?

Há 30 anos, receber o diagnóstico de um aneurisma de aorta significava enfrentar uma das cirurgias mais agressivas da medicina: um corte do peito até o púbis, afastamento dos órgãos internos, pinçamento da aorta (interrompendo o fluxo de sangue) e uma recuperação lenta e dolorosa na UTI.

Hoje, a realidade é drasticamente diferente. Graças à tecnologia endovascular, cerca de 70% a 80% dos casos podem ser tratados com a técnica EVAR (Endovascular Aneurysm Repair). O paciente muitas vezes recebe alta em 24 a 48 horas, com apenas dois curativos pequenos na virilha.

Se você ou um familiar recebeu a indicação de cirurgia, este guia revisado pelo Dr. Ricardo Tavares vai explicar passo a passo como funciona a “prótese por cateterismo”.

O Conceito: “Um cano novo por dentro do velho”

Pense no aneurisma como um cano velho e dilatado prestes a estourar. Na cirurgia aberta antiga, trocávamos o cano. Na cirurgia endovascular, nós revestimos o cano por dentro.

A endoprótese é um tubo feito de um tecido ultra-resistente (poliéster ou PTFE) sustentado por uma malha metálica (stent). Ao ser liberada dentro da aorta, ela se expande e se fixa nas paredes saudáveis acima e abaixo do aneurisma.

O Resultado: O sangue passa a correr exclusivamente por dentro da prótese. O aneurisma (a parede fraca) fica do lado de fora, sem receber pressão sanguínea. Com o tempo, esse aneurisma tende a murchar e cicatrizar.

Passo a Passo: Como é feita a cirurgia EVAR?

O procedimento é realizado em uma sala híbrida (um centro cirúrgico com equipamento de Raio-X de alta potência) ou sala de hemodinâmica.

  1. Acesso: Fazemos duas pequenas punções (furos) ou incisões mínimas nas artérias femorais (na virilha).
  2. Navegação: Guiados por fluoroscopia (Raio-X em tempo real), subimos com fios-guia e cateteres até a altura dos rins.
  3. Liberação: A prótese vem compactada dentro de um cateter fino. Posicionamos ela exatamente no local do aneurisma e a “abrimos”. Ela se fixa por pressão radial e ganchos metálicos.
  4. Montagem: Como a aorta se divide em duas pernas, montamos a prótese em módulos (corpo principal + pernas ilíacas), encaixando as peças como um sistema telescópico.
  5. Fechamento: Retiramos os cateteres e fechamos os furos da virilha, muitas vezes usando dispositivos especiais que dispensam pontos na pele.

Comparativo: Cirurgia Aberta vs. Endovascular

Por que escolher uma ou outra? Veja as diferenças práticas:

CritérioEndovascular (EVAR)Cirurgia Aberta (Convencional)
IncisãoDois furos na virilha.Grande corte abdominal.
AnestesiaGeral leve, Raqui ou até Local.Geral profunda.
Tempo de Internação1 a 2 dias.7 a 10 dias (com UTI).
Recuperação Total1 a 2 semanas.2 a 3 meses.
DurabilidadeExige tomografia anual (pode precisar de retoque).Definitiva (raramente mexe de novo).

Todo mundo pode fazer a cirurgia minimamente invasiva?

Infelizmente não. Para a prótese se fixar, precisamos de uma anatomia favorável. O principal requisito é ter um “Colo do Aneurisma” saudável — um trecho de aorta normal entre as artérias dos rins e o início da dilatação.

Se o aneurisma começar muito perto dos rins ou envolver artérias do intestino, precisamos de próteses especiais (Fenestradas ou Ramificadas), que são feitas sob medida e têm custo/complexidade maiores.

O que é “Endoleak”? (A letra miúda do contrato)

A cirurgia endovascular tem uma recuperação fantástica, mas tem um “preço”: a necessidade de vigilância eterna.

Cerca de 10% a 20% dos pacientes podem desenvolver um Endoleak (Vazamento). Isso ocorre quando um pouco de sangue consegue passar por fora da prótese e continua alimentando o aneurisma.

  • Tipo I: A prótese não vedou bem nas pontas. É perigoso e exige correção imediata (colocação de mais um stent ou balão).
  • Tipo II: Pequenas artérias da coluna (lombares) jogam sangue “de ré” para dentro do saco aneurismático. Geralmente é benigno e fecha sozinho, mas precisa ser monitorado.

Por isso, quem opera por vídeo não recebe “alta definitiva”. Precisa fazer uma Angiotomografia ou Eco-Doppler todo ano para garantir que tudo está vedado.

Como é a recuperação em casa?

A recuperação costuma ser surpreendentemente tranquila. Como não houve corte muscular no abdome, a dor é mínima.

Recomendações:

  • Caminhar dentro de casa desde o primeiro dia.
  • Não dirigir por 5 a 7 dias (devido à virilha).
  • Não levantar peso acima de 5kg por 15 dias.
  • Vida sexual pode ser retomada assim que houver conforto (geralmente 1 semana).

Dúvidas Frequentes sobre a Cirurgia (FAQ)

1. Existe risco de rejeição da prótese?

Não. As endopróteses são feitas de materiais inertes e biocompatíveis (Poliéster, PTFE, Nitinol, Aço Inoxidável). O corpo cria uma camada de células sobre ela (endotelização), integrando-a ao organismo. Não é como um transplante de órgão.

2. Quanto tempo dura a cirurgia?

Um caso padrão de EVAR leva cerca de 90 a 120 minutos. Casos complexos (próteses fenestradas) podem levar 3 a 4 horas. É muito mais rápido que a cirurgia aberta.

3. Posso viajar de avião ou passar no detector de metais?

Sim. O metal da prótese não apita em detectores de aeroporto e não sofre interferência em voos. Você pode levar uma “carteirinha do portador de implante” fornecida pelo hospital, mas raramente precisará usá-la.

4. A prótese pode sair do lugar?

É raro, mas pode acontecer (chamamos de migração). Isso ocorre principalmente se a aorta do paciente continuar dilatando no local de fixação anos depois. Por isso o controle anual com tomografia é obrigatório para detectar qualquer movimentação milimétrica.

5. Se eu tiver Endoleak, preciso abrir a barriga?

Quase nunca. A maioria dos vazamentos (Endoleaks) pode ser corrigida com um novo cateterismo (colocando uma extensão da prótese ou “colando” o vazamento com embolização), mantendo a filosofia minimamente invasiva.


Referências Bibliográficas

1. Greenhalgh RM, et al. Endovascular versus open repair of abdominal aortic aneurysm. N Engl J Med. 2010.

2. Schermerhorn ML, et al. Long-term outcomes of abdominal aortic aneurysm in the Medicare population. N Engl J Med. 2015.

3. Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Diretrizes de Tratamento do Aneurisma de Aorta Abdominal. J Vasc Bras. 2017.

4. Chaikof EL, et al. The Society for Vascular Surgery practice guidelines on the care of patients with an abdominal aortic aneurysm. J Vasc Surg. 2018.