Um aneurisma rompido é uma emergência médica catastrófica com risco iminente de morte. A ruptura é caracterizada pela Tríade Clássica: dor abdominal ou lombar súbita e intensa (descrita como uma “facada”), hipotensão arterial (choque/desmaio) e presença de uma massa pulsátil no abdome. Ao identificar esses sinais, deve-se acionar o serviço de emergência (SAMU 192) imediatamente, pois a mortalidade pré-hospitalar chega a 50%.

Introdução: O pior cenário possível

Na cirurgia vascular, não existe evento mais dramático do que o rompimento de um Aneurisma de Aorta Abdominal (AAA). É uma corrida contra o tempo. Quando a parede da artéria cede, o sangue que deveria ir para as pernas vaza para dentro da cavidade abdominal em alta pressão.

Este artigo, revisado pelo Dr. Ricardo Tavares, não é para causar pânico, mas para salvar vidas. Saber reconhecer os sintomas pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Os 3 Sinais de Alerta (A Tríade da Ruptura)

Diferente do aneurisma “íntegro” (que não dói), o aneurisma rompido ou em expansão rápida causa sintomas violentos. A literatura médica descreve a tríade clássica, presente em cerca de 50% a 70% dos casos:

1. Dor Súbita e Lancinante

Não é uma dorzinha que vai aumentando. É uma dor que começa no máximo da intensidade.

Onde dói? Geralmente no abdome, irradiando para as costas (região lombar) ou para a virilha. O paciente descreve como se algo tivesse “rasgado” dentro dele.

2. Choque (Pressão Baixa)

Como o sangue está vazando para fora da circulação, a pressão arterial despenca. O paciente apresenta:

  • Palidez intensa (pele branca ou acinzentada).
  • Suor frio.
  • Tontura, confusão mental ou desmaio.
  • Coração acelerado (taquicardia) tentando compensar a falta de sangue.

3. Massa Pulsátil Dolorosa

Ao colocar a mão na barriga do paciente, sente-se um “caroço” grande pulsando vigorosamente. Diferente do exame de rotina, neste momento o toque é extremamente doloroso.

Cuidado: Não confunda com Pedra nos Rins!

Este é o erro mais trágico em prontos-socorros não especializados. A dor do aneurisma rompido irradia para as costas e para a virilha, exatamente igual a uma cólica renal (pedra no rim).

Se um paciente idoso (mais de 60 anos), fumante, chega com dor súbita nas costas e pressão baixa, o médico NÃO pode assumir que é pedra no rim até provar que a aorta está intacta.

A Dica de Ouro: Pedra no rim faz a pessoa se contorcer de dor (não acha posição). Aneurisma rompido faz a pessoa desmaiar ou ficar hipotensa (choque). Pedra no rim quase nunca causa choque/desmaio.

Protocolo de Emergência: O que fazer?

Se você suspeita que alguém próximo está tendo uma ruptura:

  1. Ligue para o SAMU (192) ou Bombeiros (193): Avise ao atendente: “Suspeita de Aneurisma de Aorta Rompido”. Isso prioriza a ambulância.
  2. Não dê comida ou água: O paciente precisará de cirurgia imediata (anestesia geral). O estômago deve estar vazio para evitar broncoaspiração.
  3. Mantenha o paciente deitado: Isso ajuda a manter o sangue no cérebro.
  4. Não deixe o paciente dirigir: Ele pode desmaiar ao volante.

O Tratamento no Hospital: Céu Aberto ou Endovascular?

Ao chegar no hospital, se o paciente estiver estável, faz-se uma Tomografia rápida para confirmar. Se estiver instável (morrendo), vai direto para o bloco cirúrgico.

1. REVAR (Ruptured Endovascular Aneurysm Repair)

É a técnica preferida hoje. Coloca-se um balão por dentro da aorta para “tampar o furo” temporariamente e estabilizar a pressão. Depois, coloca-se a endoprótese. A sobrevivência é maior do que na cirurgia aberta.

2. Cirurgia Aberta de Emergência

Se a anatomia não permitir a endoprótese ou se o hospital não tiver o material, o cirurgião abre o abdome rapidamente, pinça a aorta com a mão ou instrumento para parar o sangramento e costura um tubo sintético. É uma cirurgia heroica.

Quais as chances de sobrevivência?

Os números são duros, mas reais:

  • 50% morrem em casa ou no transporte antes de chegar ao hospital.
  • Dos que chegam vivos e operam, a mortalidade gira em torno de 30% a 50%.

Isso reforça a importância vital do Check-up Preventivo. Tratar um aneurisma de forma eletiva (planejada) tem risco de morte de apenas 1% a 2%. Tratar rompido tem risco de 80% (somando pré e pós-hospitalar).


Perguntas Frequentes sobre Ruptura (FAQ)

1. O aneurisma avisa antes de estourar?

Raramente. Porém, alguns pacientes sentem uma dor abdominal vaga ou dor nas costas dias antes da ruptura completa. Isso é chamado de “Aneurisma Sintomático” ou “Sinal de Expansão”. Se você tem aneurisma conhecido e começou a sentir dor, vá ao hospital agora.

2. Qual o tamanho que o aneurisma rompe?

O risco aumenta exponencialmente com o tamanho. Aneurismas abaixo de 5,0 cm raramente rompem. Acima de 6,0 cm, o risco anual de ruptura sobe drasticamente. Acima de 8,0 cm, a ruptura é quase certa se não tratado.

3. É possível sobreviver a um rompimento total?

Sim, se o rompimento for “contido”. Às vezes, o sangue vaza para trás do abdome (retroperitônio) e os tecidos seguram o sangramento temporariamente, dando tempo de chegar ao hospital. Se o rompimento for para dentro da barriga (peritônio livre), a morte ocorre em minutos por hemorragia massiva.

4. O que causa a ruptura súbita?

Picos de pressão arterial (crise hipertensiva) são o gatilho mais comum. Esforço físico extremo ou trauma abdominal também podem romper um aneurisma que já estava grande e frágil.

5. Quem sobrevive fica com sequelas?

A recuperação é lenta. Como o paciente perdeu muito sangue e ficou hipotenso, os rins podem sofrer (insuficiência renal temporária) e pode haver complicações intestinais. Mas, passada a fase crítica, é possível levar uma vida normal com a prótese.


Referências Bibliográficas

1. Improve Trial Investigators. Endovascular or open repair strategy for ruptured abdominal aortic aneurysm: 30 day outcomes from randomised controlled trial. BMJ. 2014.

2. Powell JT, et al. Ruptured Abdominal Aortic Aneurysm. N Engl J Med. 2023.

3. Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Diretrizes de Tratamento do Aneurisma de Aorta Roto. J Vasc Bras. 2017.

4. Gawenda M, et al. Factors influencing mortality in ruptured aortic aneurysms. Vasc Endovascular Surg. 2013.