A cirurgia convencional de varizes e a microflebectomia consistem na remoção física das veias doentes através de microincisões. Indicada para varizes calibrosas e tortuosas que não respondem ao laser ou espuma, a técnica atual dispensa pontos na maioria dos cortes, utilizando agulhas especiais para extrair a veia, o que garante excelentes resultados estéticos e alívio imediato da insuficiência venosa.
Introdução: A cirurgia de varizes ainda é um bicho-papão?
Quando falamos em “cirurgia de varizes”, a memória coletiva imediatamente resgata histórias de tias ou avós que passaram por procedimentos traumáticos nas décadas de 80 ou 90. Relatos de pernas inteiramente roxas, cortes enormes, pontos dolorosos e a necessidade de ficar um mês inteiro deitada na cama com as pernas para cima criaram um verdadeiro pavor em torno do bisturi.
Por causa desse estigma, muitos pacientes fogem do consultório médico e permitem que a doença venosa avance para estágios perigosos, como a formação de úlceras ou trombose. No entanto, a medicina vascular evoluiu de forma extraordinária. A cirurgia de “cortar e arrancar” deu lugar a técnicas milimétricas, focadas na estética e na rápida recuperação.
Se você está pesquisando as opções de tratamento e quer entender o cenário completo, recomendamos que inicie a leitura pelo nosso Comparativo entre Laser, Espuma e Cirurgia Convencional. Mas se o seu cirurgião indicou a retirada física das veias e você está com medo, este guia definitivo, revisado pelo Dr. Ricardo Tavares, vai desmistificar o procedimento e provar que a cirurgia clássica, quando bem indicada, ainda é uma aliada insubstituível.
O que é a Microflebectomia Estética? (A técnica do Crochê)
Na imensa maioria das vezes, o que chamamos de “cirurgia convencional” hoje é, na verdade, a Microflebectomia Ambulatorial. Esta técnica é uma verdadeira obra de arte cirúrgica focada em retirar as varizes que fazem relevo na pele (aquelas que parecem cordões grossos e esverdeados pulando na batata da perna ou na coxa).
Como o cirurgião faz?
Diferente do passado, onde fazíamos cortes de 3 a 5 centímetros para encontrar a veia, hoje utilizamos lâminas especiais de oftalmologia ou agulhas grossas para fazer furos minúsculos na pele (cerca de 1 a 2 milímetros).
Através desse microfuro, o cirurgião insere um instrumento muito semelhante a uma agulha de crochê em miniatura. Com essa agulha, ele “pesca” a veia doente por baixo da pele e a puxa delicadamente para fora, extraindo-a por completo.
O Grande Benefício Estético
Como os furos são literalmente do tamanho da ponta de uma caneta, eles não precisam de pontos (suturas). A pele se fecha naturalmente e, no final da cirurgia, colocamos apenas pequenos curativos adesivos (Steri-Strips) para manter as bordas unidas. Após alguns meses, as marquinhas tornam-se praticamente invisíveis, garantindo um resultado estético superior e eliminando o incômodo de “tirar os pontos” no pós-operatório.
A Safenectomia: Quando retirar a veia safena é a única saída?
A veia safena magna é a veia mais longa do corpo, indo do tornozelo até a virilha. Quando ela está completamente doente e com refluxo, ela funciona como uma “caixa d’água furada”, inundando as pernas e criando as varizes superficiais.
Hoje, o padrão-ouro para tratar a safena é o Laser (Endolaser), que queima a veia por dentro sem tirá-la do lugar. No entanto, a extração física da safena (Safenectomia Convencional) ainda é a melhor opção em cenários específicos:
- Aneurismas Venosos Gigantes: Quando a safena dilatou tanto (ex: acima de 15 milímetros) que o laser não tem potência suficiente para fechar a luz da veia de forma segura.
- Tortuosidade Extrema: Safenas que fazem curvas muito fechadas (como um “S” muito sinuoso), impedindo fisicamente que a fibra dura do laser passe por dentro dela.
- Trombos Calcificados: Se a safena possui coágulos antigos e duros no seu interior que bloqueiam a passagem dos cateteres modernos.
- Cobertura de Planos de Saúde: Alguns convênios mais básicos não oferecem cobertura para a fibra do laser, tornando a cirurgia clássica a única via acessível para o paciente curar sua dor crônica.
Como a Safena é retirada?
O cirurgião faz uma pequena incisão na virilha e outra no joelho ou tornozelo. Uma haste flexível (fleboextrator) é passada por dentro da veia. A veia é amarrada a essa haste e, de forma contínua, extraída da perna. Embora pareça agressivo, o procedimento é rápido e o paciente está anestesiado, não sentindo dor alguma durante o ato.
Os Bastidores: Por que o médico desenha na sua perna?
Um dos momentos mais importantes da cirurgia convencional acontece antes mesmo do paciente ir para a mesa de operação: é a Marcação Venosa (Mapeamento).
Você notará que, minutos antes da cirurgia, o cirurgião vascular pedirá para você ficar em pé no quarto. Com uma caneta cirúrgica (marcador de pele), ele vai desenhar todos os cordões varicosos que encontrar.
Por que em pé? Porque as veias varicosas são como bexigas vazias. Quando você deita na mesa de cirurgia, a pressão da gravidade some, o sangue escoa, e as veias simplesmente “desaparecem” ou murcham, ficando impossíveis de serem vistas a olho nu. O desenho feito com o paciente em pé é o verdadeiro mapa do tesouro que guia o cirurgião durante o procedimento, garantindo que nenhuma veia doente seja esquecida.
Anestesia: Vou tomar “raqui” nas costas?
A escolha da anestesia depende da extensão da cirurgia:
- Para Microflebectomias pequenas e isoladas: Pode ser feita apenas com anestesia local (infiltração na pele) associada a uma sedação leve para o paciente relaxar e dormir. O paciente vai para casa horas depois.
- Para cirurgias maiores e Safenectomia: O padrão é a Raquianestesia (a mesma usada em cesarianas) ou o Bloqueio Peridural. Ela adormece a paciente da cintura para baixo, garantindo relaxamento muscular total e zero dor no intraoperatório.
O mito de que a raquianestesia “dá dor nas costas para o resto da vida” ou “causa dor de cabeça terrível” ficou no passado. Com o uso de agulhas modernas, ultrafinas e não cortantes, os efeitos colaterais pós-raqui são extremamente raros atualmente.
Como é o Pós-Operatório Real da Cirurgia Convencional?
A recuperação exige um pouco mais de paciência em comparação ao laser ou espuma, mas é perfeitamente gerenciável. Como ocorre a extração física do vaso, é esperado o rompimento de pequenos capilares ao redor, o que gera hematomas (marcas roxas) e inchaço temporário.
| Fase da Recuperação | O que esperar e o que fazer |
|---|---|
| Primeiros 3 dias | Repouso relativo. Ficar deitado com as pernas levemente elevadas (15 cm). Caminhar apenas para ir ao banheiro ou pequenas distâncias em casa. Uso obrigatório de meia de compressão ou enfaixamento. |
| De 4 a 10 dias | Pode voltar a caminhar distâncias maiores e realizar tarefas leves em casa. Retorno ao trabalho administrativo (home office ou sentado) pode ser liberado pelo médico. |
| De 15 a 30 dias | Os hematomas começam a clarear de roxo para amarelo. Liberação progressiva para dirigir e retorno integral ao trabalho. Exercícios de impacto leve podem ser retomados no fim desse ciclo. |
Lembramos que não se pode tomar sol nas pernas em hipótese alguma enquanto houver hematomas, para evitar manchas permanentes. O uso rigoroso de cremes ou pomadas indicadas pelo médico acelera a absorção desses roxos.
Dúvidas Frequentes sobre a Cirurgia Convencional (FAQ)
1. Vai ficar cicatriz na minha perna?
A Microflebectomia não deixa cicatrizes visíveis na grande maioria dos pacientes, pois os furos têm 1 a 2 milímetros e não levam pontos. Já a Safenectomia convencional exige pequenos cortes (de 2 a 3 cm) na virilha e no tornozelo, que levam pontos e podem deixar uma cicatriz discreta, facilmente escondida por roupas íntimas.
2. A veia retirada faz falta para a circulação?
Não. Se o cirurgião indicou a retirada, é porque essa veia já não estava funcionando. Ela tinha perdido a capacidade de levar o sangue de volta ao coração e o sangue estava acumulando nela (refluxo). Ao retirar a veia doente, a circulação melhora quase imediatamente, pois o sangue passa a subir pelas veias saudáveis e profundas.
3. É verdade que o repouso não é mais absoluto?
Verdade. Antigamente, pedia-se 30 dias na cama. Hoje, o repouso absoluto é contraindicado, pois aumenta o risco de trombose. Orientamos um “repouso relativo”: deite-se com as pernas para o alto, mas levante-se a cada duas horas para caminhar um pouco pela casa e ativar a circulação da panturrilha.
4. Quanto tempo depois posso voltar para a academia?
Depende da extensão da cirurgia. Caminhadas leves são liberadas geralmente após 15 dias. Musculação focada em membros superiores também após 15 a 20 dias. Treinos pesados de perna (agachamento, leg press) ou esportes de impacto (corrida) exigem entre 30 e 45 dias de recuperação completa dos tecidos.
5. O convênio cobre a cirurgia de varizes convencional?
Sim. A cirurgia convencional (Safenectomia e Microflebectomia) consta no Rol de Procedimentos de Cobertura Obrigatória da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Se houver indicação médica clara (diagnóstico de insuficiência venosa crônica com sintomas), todos os planos de saúde são obrigados a cobrir as despesas hospitalares e honorários médicos básicos do procedimento.
Referências Bibliográficas
1. Gloviczki P, et al. The care of patients with varicose veins and associated chronic venous diseases: clinical practice guidelines of the Society for Vascular Surgery and the American Venous Forum. J Vasc Surg. 2011.
2. Ricci S. Ambulatory phlebectomy. A complete clinical formulation. Dermatol Surg. 1998.
3. Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Projeto Diretrizes: Insuficiência Venosa Crônica. Diagnóstico e Tratamento. 2016.
4. Ramelet AA. Ambulatory phlebectomy. Venous disorders. W.B. Saunders. 2001.



