A escleroterapia com espuma é um tratamento não cirúrgico que utiliza a injeção de uma substância química (polidocanol) em forma de mousse para eliminar varizes grossas e microvarizes. Indicada para pacientes que não podem ou não desejam operar, a técnica causa a oclusão da veia doente no próprio consultório, não exige anestesia nas costas (raqui) e permite o retorno imediato às atividades normais, sem necessidade de repouso.

Introdução: É possível tratar varizes grossas sem ir para o hospital?

O medo do centro cirúrgico, da anestesia e, principalmente, do tempo de repouso longe do trabalho afasta milhares de pacientes do tratamento vascular todos os anos. Muitas pessoas convivem com pernas pesadas, inchaço crônico e até risco de úlceras simplesmente porque não podem parar suas vidas para “abrir a perna”.

Se você se identifica com esse cenário, a Escleroterapia com Espuma Densa guiada por ultrassom pode ser a solução definitiva. Essa técnica revolucionou a angiologia ao transferir o tratamento de varizes calibrosas do bloco cirúrgico para a cadeira do consultório.

Antes de decidir, se você ainda está na dúvida entre os métodos disponíveis (laser, cirurgia ou aplicações), recomendamos a leitura do nosso Guia Comparativo: Laser, Espuma ou Cirurgia Convencional. Nele, o Dr. Ricardo Tavares traça um paralelo completo. Mas se o seu interesse é fugir totalmente do bisturi, continue lendo para entender a mágica — e a ciência — por trás da espuma.

A Química do Tratamento: O que é a Espuma?

A “espuma” não é um remédio que já vem pronto na farmácia. Ela é preparada pelo cirurgião vascular minutos antes da aplicação, utilizando uma técnica consagrada mundialmente chamada de Método Tessari.

O médico utiliza duas seringas conectadas por uma torneira de três vias. Em uma seringa, coloca-se o medicamento líquido esclerosante (geralmente o Polidocanol). Na outra, coloca-se ar ambiente ou uma mistura de gases biológicos (como CO2 e O2). Ao forçar a passagem do líquido misturado ao ar rapidamente de uma seringa para a outra, cria-se uma espuma densa, com a exata consistência de uma espuma de barbear.

Por que transformar o líquido em espuma?

A grande sacada física do tratamento é a área de contato. Se injetarmos o medicamento na forma líquida dentro de uma varize grossa, o sangue vai diluir o remédio e lavá-lo rapidamente, sem fazer efeito.

A espuma, por ser densa, “empurra” o sangue como se fosse um êmbolo e preenche todo o tubo da veia. Ela gruda na parede interna do vaso (endotélio) e tem tempo suficiente para agir, destruindo a camada íntima da veia. Essa destruição controlada faz a veia entrar em espasmo, colar suas paredes e fechar. Ao longo dos meses, o corpo absorve esse cordão fibroso.

Para quem a Espuma é a melhor indicação?

Embora seja versátil, a espuma brilha e é considerada tratamento de escolha em cenários específicos onde a cirurgia convencional ou até mesmo o Endolaser encontram barreiras:

  • Pacientes Idosos ou com Alto Risco Cirúrgico: Pessoas com problemas cardíacos severos, obesidade mórbida ou diabetes descompensada, que não suportariam uma raquianestesia.
  • Varizes Recidivadas: Pacientes que já operaram as varizes há 10 ou 15 anos e o problema voltou. O tecido da perna já tem cicatrizes (fibrose), o que torna uma nova cirurgia perigosa. A agulha da espuma resolve isso facilmente.
  • Úlceras Venosas Abertas: A espuma é um verdadeiro “milagre” para feridas que não fecham há anos. Injetamos a espuma nas veias que estão alimentando a ferida, o que seca o vazamento e permite a cicatrização rápida da úlcera, sem precisar cortar a pele doente.
  • Veias Extremamente Tortuosas: Quando a safena faz curvas de 360 graus como um “saca-rolhas”, a fibra reta do laser não consegue passar. A espuma navega por essas curvas sem problemas.

A Maior Objeção: “Doutor, a espuma mancha a perna?”

Em nossa prática clínica, a transparência é o primeiro pilar. A resposta é: Sim, existe o risco de manchar a pele (hipercromia). É o principal efeito adverso estético desse método.

Por que a pele mancha? (A culpa é da Hemossiderina)

Quando a espuma fecha a veia grossa, um pouco de sangue pode ficar “preso” dentro desse cordão fechado, formando um coágulo duro. O nosso corpo vai tentar absorver esse sangue. Durante esse processo de degradação, os glóbulos vermelhos liberam ferro (hemossiderina). O ferro “vaza” para a pele e funciona como uma tinta de tatuagem, deixando um rastro escuro ou acastanhado no trajeto da veia tratada.

Como o Cirurgião Vascular evita a mancha?

Nós não deixamos o paciente à própria sorte. Adotamos protocolos rígidos de prevenção de manchas:

  1. Ultrassom de Controle: A aplicação é feita 100% guiada por ultrassom, garantindo que a espuma vá apenas para a veia alvo.
  2. Trombectomia do Coágulo Retido (O Segredo): Se na revisão (7 a 15 dias após a aplicação) notarmos que o sangue ficou preso e a veia está dura e dolorida, fazemos um microfuro com agulha fina (sob anestesia local) e “esprememos” esse sangue pisado para fora. Sem sangue acumulado, não há depósito de ferro. Sem ferro, não há mancha.
  3. Uso de Meias Elásticas: A compressão “esmaga” a veia logo após a aplicação, não deixando espaço para o sangue acumular.

Mesmo assim, em pacientes com pele mais morena ou negra (fototipos mais altos), a taxa de hipercromia transitória pode chegar a 30%. Na imensa maioria, a mancha clareia naturalmente entre 6 e 12 meses.

Como é o dia da aplicação? (Passo a Passo)

O processo é incrivelmente simples para o paciente. Tudo ocorre em uma sala de procedimentos da clínica.

  • Você não precisa estar em jejum.
  • A perna é higienizada e o médico mapeia as veias com o Eco-Doppler.
  • Uma agulha minúscula (tipo “borboletinha” ou scalp) é inserida na veia alvo. Não há necessidade de anestesia prévia, pois a picada é comparável a tirar sangue no laboratório.
  • O médico prepara a espuma na hora e a injeta enquanto acompanha seu trajeto em tempo real na tela do ultrassom.
  • A veia sofre um espasmo visível no monitor. Imediatamente, a perna é enfaixada ou calça-se a meia de compressão.
  • Tempo total: Cerca de 30 a 40 minutos.

O Pós-Procedimento: Vida Normal Imediata

O conceito de recuperação da Espuma é o oposto da cirurgia clássica. Nós proibimos o repouso absoluto. O paciente deve levantar da maca e caminhar por 15 a 20 minutos antes de ir para casa ou para o trabalho.

Por que caminhar? Caminhar ativa a “bomba da panturrilha”, esvaziando as veias profundas e garantindo que, se alguma gotícula de espuma escapar para a circulação profunda, ela seja rapidamente diluída e inativada no sangue, prevenindo a temida trombose venosa profunda.

O que é permitido?O que é proibido?
Trabalhar no mesmo dia (escritório ou em pé).Tomar sol na perna tratada (risco gravíssimo de manchar).
Caminhadas leves e atividades do dia a dia.Exercícios de alto impacto (musculação pesada nas pernas) por 7 dias.
Dirigir.Remover a meia de compressão antes do prazo médico.

A Espuma resolve tudo em uma sessão?

Não. Diferente da cirurgia a laser ou convencional, onde limpamos a perna em um único “ato cirúrgico”, a espuma é um tratamento seriado. Existe um volume máximo de espuma (geralmente 10 ml a 15 ml de líquido) que o corpo humano pode receber por dia com segurança, sem risco de toxicidade.

Por isso, se você tem muitas varizes em ambas as pernas, o tratamento será fracionado em sessões (geralmente a cada 15 ou 30 dias). O médico vai “secando” as veias por etapas, das maiores para as menores. É um processo de paciência, mas que recompensa por manter você fora do hospital.


Dúvidas Frequentes sobre a Espuma Densa (FAQ)

1. Dói para aplicar a espuma?

O procedimento é quase indolor. O paciente sente apenas a picadinha inicial da agulha (que é muito fina) e, durante a injeção da espuma, pode relatar uma leve ardência ou sensação de peso na perna, que desaparece em poucos minutos. Não há necessidade de anestesia local ou sedação.

2. Quantas sessões de espuma vou precisar fazer?

Depende do volume e do calibre das suas varizes. Para tratar apenas uma veia safena, frequentemente 1 a 2 sessões são suficientes. Se o caso envolver múltiplas veias varicosas em ambas as pernas, pode ser necessário um planejamento de 3 a 5 sessões, com intervalos quinzenais.

3. A espuma pode subir para o coração ou pulmão?

A espuma, de fato, viaja pela circulação até o pulmão, onde as microbolhas de gás são filtradas e o paciente as elimina pela respiração. Isso é esperado e seguro quando as diretrizes de volume máximo diário (cerca de 10ml) são respeitadas. Por isso, caminhadas pós-aplicação são essenciais para diluir o produto rapidamente nas veias profundas.

4. Quem já teve trombose pode fazer aplicação de espuma?

Depende. A avaliação por Eco-Doppler é obrigatória. Se as veias profundas da perna (que assumem o fluxo quando secamos as varizes) estiverem entupidas ou sequeladas devido à trombose antiga, não podemos fechar as varizes superficiais. Se o sistema profundo estiver livre e fluindo, o procedimento pode ser avaliado pelo cirurgião vascular.

5. Posso fazer o tratamento de espuma no verão?

Pode, mas com extrema cautela médica. O calor não afeta a eficácia do medicamento, mas a exposição ao sol enquanto houver qualquer hematoma ou inflamação roxa/amarelada na pele causará manchas escuras definitivas. Além disso, o calor do verão pode tornar o uso da meia de compressão (que é obrigatório) mais desconfortável. O paciente deve se comprometer com esses cuidados.


Referências Bibliográficas

1. Rabe E, et al. European guidelines for sclerotherapy in chronic venous disorders. Phlebology. 2014.

2. Jia X, et al. A systematic review of foam sclerotherapy for varicose veins. Br J Surg. 2007.

3. Tessari L, et al. Preliminary experience with a new sclerosing foam in the treatment of varicose veins. Dermatol Surg. 2001.

4. Bountouroglou DG, et al. Ultrasound-guided foam sclerotherapy combined with sapheno-femoral ligation compared to surgical treatment of varicose veins: early results of a randomised controlled trial. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2006.