Varizes voltam depois da cirurgia? Sim, a recidiva de varizes pode ocorrer porque a Insuficiência Venosa Crônica é uma doença genética e progressiva. Embora a veia tratada (com laser ou cirurgia) seja permanentemente inativada ou removida e não volte, outras veias saudáveis da perna podem adoecer ao longo dos anos devido ao envelhecimento, oscilações hormonais e sobrecarga, formando novas varizes que exigirão sessões de manutenção.
Introdução: “Doutor, vale a pena operar se vai voltar?”
Se você já passou por consultas com um cirurgião vascular, ou mesmo conversou com amigas que já operaram, é muito provável que a seguinte frase tenha surgido na roda de conversa: “Eu não vou operar minhas pernas. Minha tia operou e, cinco anos depois, estava tudo cheio de varizes de novo. É jogar dinheiro fora!”
Essa é, sem dúvida, a maior objeção e o maior medo dos pacientes que sofrem com dores, inchaço e peso nas pernas. O temor de passar por um procedimento médico, investir tempo e recursos, e ver o problema retornar frustra qualquer um.
Mas será que as varizes “antigas” ressuscitaram? Ou será que o que sua tia teve foram varizes completamente “novas”? Se você está na fase de decisão e quer entender o cenário completo das técnicas, sugerimos que leia o nosso Guia Comparativo: Laser, Espuma ou Cirurgia Convencional. Mas se o seu objetivo é entender o futuro das suas pernas pós-tratamento, este artigo, revisado pelo Dr. Ricardo Tavares, vai revelar a verdade nua e crua sobre a recidiva venosa.
A Verdade Médica: A Insuficiência Venosa não tem “cura”
O primeiro passo para o sucesso do tratamento é o alinhamento de expectativas. A Insuficiência Venosa Crônica (IVC) — a doença que causa as varizes — é comparável à Hipertensão (pressão alta) ou ao Diabetes. Elas são doenças crônicas de base genética.
Você não toma um remédio para pressão alta esperando que ele “cure” a sua pressão para o resto da vida. Você toma para controlar a doença e evitar infartos. Com as varizes, a lógica é idêntica.
Quando você possui a genética para varizes, as paredes das suas veias nascem com menos colágeno e elastina. Elas são estruturalmente mais fracas. A cirurgia vai eliminar as veias que já “quebraram” e estão doentes hoje. No entanto, você possui milhares de outras veias perfeitas nas pernas. Com a ação da gravidade ao longo de 10, 20 ou 30 anos, algumas dessas veias saudáveis acabarão cedendo e dilatando, formando novas varizes.
Portanto, a veia que o cirurgião tratou nunca mais volta. O que aparecem são veias NOVAS.
Por que as varizes voltam? Os 3 Mecanismos da Recidiva
Na literatura médica, dividimos o “retorno” das varizes em três grandes grupos. Entender isso ajuda a saber se o problema foi da cirurgia ou da evolução natural do seu corpo.
1. Recidiva Verdadeira (Progressão da Doença)
É o cenário mais comum. A cirurgia foi um sucesso absoluto. A perna ficou limpa. Anos depois, por conta de uma gravidez, ganho de peso excessivo, ou pelo próprio envelhecimento natural, uma veia que estava fina e saudável não aguentou a pressão e se transformou em uma varize grossa. Isso não é falha médica; é a progressão implacável da genética.
2. Falha Técnica (Recanalização ou Erro Tático)
Acontece quando a técnica falhou em fechar a veia permanentemente. Isso é mais comum na Escleroterapia com Espuma. Injetamos a espuma, a veia fecha, mas meses depois, o fluxo de sangue teimoso consegue “abrir um túnel” (recanalização) por dentro da veia que havia sido fechada. Também ocorre na cirurgia clássica quando o cirurgião, sem o auxílio do ultrassom, “esquece” uma veia nutridora importante por baixo da pele.
3. Neovascularização (O Segredo da Angiologia)
Este é o fenômeno mais fascinante e frustrante da cirurgia vascular antiga. Lembra da técnica de “arrancar” a safena (Safenectomia Convencional)? Quando arrancamos uma veia grossa de dentro da perna, deixamos um túnel vazio e rasgado para trás.
O corpo humano, no seu instinto de sobrevivência e cicatrização, percebe aquele trauma e começa a fabricar veias minúsculas novas para tentar “religar” os tecidos rasgados. Esse processo chama-se Neovascularização. O problema é que essas veias recém-criadas não têm válvulas e são muito frágeis. Em poucos anos, elas dilatam, formam um emaranhado de vasos tortuosos na virilha e se transformam em varizes gravíssimas e difíceis de tratar.
Qual tratamento tem a menor taxa de retorno?
Hoje, graças à tecnologia, as taxas de recidiva despencaram. Veja como cada técnica se comporta a longo prazo (estudos de acompanhamento de 5 a 10 anos):
| Técnica Utilizada | Risco de Falha Técnica (Recanalização) | Risco de Neovascularização (Veias Novas por Trauma) |
|---|---|---|
| Endolaser (Termoablação) | MUITO BAIXO (< 5%). O calor intenso sela a veia de forma definitiva na grande maioria dos casos. | BAIXO. Como a veia não é “arrancada” (fica lá dentro fibrosada), o corpo não entende como trauma e não cria emaranhados de veias novas. |
| Cirurgia Convencional (Extração) | BAIXO. Se a veia foi arrancada, ela não tem como recanalizar. | ALTO. O trauma físico da extração é o maior causador de neovascularização na virilha. |
| Escleroterapia com Espuma | MODERADO A ALTO (10% a 30%). Apenas a agressão química pode não ser suficiente para veias de calibre muito grande, permitindo que reabram meses depois. | BAIXO. Também não arranca a veia, evitando o trauma físico e a criação de neovasos. |
É por isso que o Endolaser é o padrão-ouro mundial. Ele une o melhor dos dois mundos: fecha a veia tão bem quanto a cirurgia aberta, mas sem causar a temida neovascularização da extração.
Como blindar suas pernas e evitar que elas voltem?
Se você investiu tempo, coragem e dinheiro em um tratamento vascular, você quer que o resultado dure décadas. Para isso, o papel do paciente é tão importante quanto o bisturi do cirurgião.
1. Manutenção Anual (O Segredo do Sucesso)
Você vai ao dentista todo ano para limpar o tártaro antes que vire uma cárie gigante que destrua o dente, certo? Com as pernas, a regra é a mesma. O paciente inteligente visita o cirurgião vascular uma vez por ano. Se aparecer uma veiazinha doente ou uma microvariz nova de 1 milímetro, resolvemos ali mesmo, no consultório, com uma rápida aplicação de espuma ou laser transdérmico. Custa pouco, não dói e impede que essa microveia vire uma safena doente em 5 anos.
2. Controle do Peso (Pressão Abdominal)
O ganho de peso é o arqui-inimigo do retorno venoso. A gordura abdominal funciona como uma “pedra” esmagando a veia cava na barriga, criando uma barreira para o sangue que sobe das pernas. Esse sangue desce de volta (refluxo), dilata as veias saudáveis e cria novas varizes. Manter o IMC controlado é fundamental.
3. Ativação da Bomba Sural (Panturrilha)
Sedentarismo mata a circulação. A panturrilha é o seu segundo coração. Quando você contrai a panturrilha (caminhando, correndo ou subindo escadas), ela espreme as veias profundas e joga o sangue com força para o peito. Se você trabalha o dia todo sentado, crie o hábito de levantar e dar uma volta a cada 1 hora. Exercícios de fortalecimento da perna na musculação são o melhor remédio preventivo que existe.
4. Terapia Compressiva Contínua
Muitos pacientes abandonam as meias elásticas assim que o médico dá alta do pós-operatório. Se você tem forte genética para varizes ou trabalha 8 horas por dia em pé (cabeleireiros, cirurgiões, seguranças), o uso de meias elásticas de compressão suave a média durante a jornada de trabalho evita que as veias dilatem ao longo do dia.
Dúvidas Frequentes sobre o Retorno das Varizes (FAQ)
1. Se operar, vou sentir menos dor mesmo se elas voltarem?
Sim! Ao retirar as grandes safenas insuficientes ou as varizes mais grossas, tiramos 90% da sobrecarga e do volume de sangue estagnado nas pernas. O alívio do peso, do cansaço crônico e do risco de trombose é drástico. Mesmo que algumas varizes finas voltem no futuro, o quadro funcional raramente atinge a gravidade inicial se houver acompanhamento.
2. Gravidez faz as varizes voltarem mais rápido?
A gravidez é um grande “teste de estresse” para as veias. O volume de sangue no corpo da mulher aumenta em 50%, o útero comprime as veias da pelve e a progesterona relaxa as paredes das veias. Mulheres com predisposição genética que engravidam após a cirurgia têm alta chance de desenvolver novas varizes durante os 9 meses. A recomendação é uso estrito de meias de compressão na gestação.
3. Devo esperar ter todos os filhos para operar as varizes?
Este é um erro clássico que leva a complicações graves. Se você tem varizes grossas e sintomas hoje, não deve esperar. Entrar em uma gravidez com uma safena doente multiplica seu risco de Trombose Venosa Profunda (TVP) e Flebite. O ideal é operar, engravidar com as pernas limpas e seguras, e fazer pequenos retoques estéticos após o parto, se necessário.
4. Anticoncepcional faz as varizes voltarem?
Pílulas anticoncepcionais combinadas (ricas em estrogênio) favorecem a dilatação da parede venosa e aumentam o risco de trombose. Em pacientes que já operaram e possuem forte genética, os cirurgiões vasculares geralmente recomendam métodos não hormonais (DIU de Cobre) ou métodos apenas com progesterona, para reduzir o risco de recidiva.
5. Laser transdérmico para vasinhos também pode falhar e o vasinho voltar?
O vasinho efetivamente carbonizado pelo laser não volta. A falha estética na técnica CLaCS ou PEIM ocorre apenas quando o médico seca o vasinho superficial, mas esquece de procurar e fechar a “veia nutridora” (microvariz) profunda que alimenta aquele vasinho. Usando a Realidade Aumentada (VeinViewer), essa taxa de erro cai para quase zero.
Referências Bibliográficas
1. Perrin MR, et al. Recurrent varices after surgery (REVAS), a consensus document. REVAS group. Cardiovasc Surg. 2000.
2. Ostler AE, et al. Neovascularization in recurrent varicose veins: more histologic and ultrasound evidence. J Vasc Surg. 2011.
3. Darwood RJ, et al. Randomized clinical trial comparing endovenous laser ablation with surgery for the treatment of primary great saphenous varicose veins. Br J Surg. 2008.
4. Flessenkämper I, et al. Endovenous laser ablation with and without high ligation compared with high ligation and stripping in the treatment of great saphenous varicose veins: initial results of a multicentre randomized controlled trial. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2013.



