A Cirurgia de Varizes a Laser, ou Endolaser (EVLT), é uma técnica minimamente invasiva que utiliza energia térmica para selar e inativar veias doentes, como a safena, sem a necessidade de cortes. É indicada para pacientes com insuficiência venosa crônica, oferecendo como principal benefício uma recuperação acelerada, menor risco de hematomas e retorno rápido às atividades normais.
Introdução: O fim do trauma de “arrancar a safena”
Por muitas décadas, o tratamento cirúrgico das varizes envolvia um procedimento chamado safenectomia clássica (ou fleboextração). Essa técnica consistia em fazer uma incisão na virilha, outra no tornozelo, introduzir um cabo de aço por dentro da veia e literalmente “arrancá-la” da perna. O resultado era eficaz, mas o preço a pagar era alto: hematomas extensos, lesões nervosas (dormência na pele), fortes dores e um repouso absoluto que podia durar até 30 dias.
Hoje, graças ao avanço da tecnologia médica, esse cenário de terror cirúrgico ficou no passado. A Cirurgia a Laser (Endolaser) mudou completamente a forma como abordamos as veias safenas e as grandes varizes. O conceito evoluiu de “extração” para “ablação” (inativação interna).
Se você está em dúvida sobre qual método escolher para o seu caso, recomendamos ler primeiro o nosso Comparativo Completo: Laser, Espuma ou Cirurgia Convencional. Mas se o seu cirurgião vascular já indicou o Endolaser e você quer entender exatamente o que vai acontecer no seu corpo, este guia, revisado pelo Dr. Ricardo Tavares, esclarecerá todas as etapas do procedimento.
Como funciona o Endolaser (EVLT)? O conceito da Termoablação
A sigla EVLT vem do inglês Endovenous Laser Treatment (Tratamento a Laser Endovenoso). Diferente do laser transdérmico, que é disparado por fora da pele para secar pequenos vasinhos estéticos, o Endolaser age por dentro da veia.
O objetivo do laser não é “derreter” a veia ou fazê-la sumir como num passe de mágica instantâneo. O objetivo é causar uma Termoablação. A ponta da fibra óptica emite uma luz de alta energia que se transforma em calor (podendo passar de 100°C na ponta). Esse calor entra em contato com a parede interna da veia doente (o endotélio) e causa um dano térmico irreversível.
Ao ser queimada por dentro, a veia sofre um espasmo, encolhe e se fecha completamente. Sem sangue circulando por ali, a veia torna-se um “cordão de cicatriz” (fibrose). Ao longo dos meses seguintes, os macrófagos (células de limpeza do nosso sistema imunológico) vão gradativamente absorvendo essa veia inativada, até que ela desapareça do seu organismo de forma natural.
O Passo a Passo: O que acontece na sala de cirurgia?
O procedimento de Endolaser é considerado extremamente elegante e seguro. Ele é realizado em ambiente de Hospital Dia ou em Clínicas com centro cirúrgico estruturado, geralmente sob sedação leve para o conforto total do paciente.
- Mapeamento por Ultrassom: Com o paciente em pé ou deitado, o cirurgião usa o aparelho de Eco-Doppler para mapear exatamente o trajeto da veia doente. A cirurgia é 100% guiada pelas imagens do ultrassom em tempo real.
- A Punção (O Furo): Não há cortes com bisturi. Inserimos uma agulha especial (punção) geralmente na região do joelho ou tornozelo. Através desse furo milimétrico, inserimos a fibra do laser.
- Navegação da Fibra: O médico desliza a fibra de laser por dentro da veia safena até chegar à região da virilha (onde a safena se junta à veia femoral profunda). Tudo isso é monitorado pela tela do ultrassom para garantir precisão milimétrica.
- A Proteção (O Segredo Clínico): Antes de ligar o laser, realizamos a Anestesia Tumescente (explicada no próximo tópico).
- A Ablação: O laser é acionado. O médico vai puxando a fibra lentamente, milímetro por milímetro. Por onde o laser passa, a veia vai sendo selada.
- Finalização: A fibra é retirada. O pequeno furo na perna é fechado apenas com um curativo adesivo (Steri-Strip). Coloca-se a meia de compressão no paciente ainda na maca.
O Segredo da Recuperação Sem Dor: A Anestesia Tumescente
Você pode estar se perguntando: “Se o laser esquenta tanto dentro da veia, ele não vai queimar minha perna, meus músculos ou minha pele?”
A resposta é não, e o motivo é uma técnica fantástica chamada Anestesia Tumescente. Antes de disparar o laser, o cirurgião vascular injeta, guiado pelo ultrassom, um grande volume de soro fisiológico gelado misturado com um anestésico diluído em volta de toda a veia safena.
Esse líquido forma uma “capa de água” ou um escudo térmico ao redor da veia. Essa capa tem três funções vitais:
- Isolamento Térmico: O calor do laser fica restrito apenas à veia, protegendo a pele contra queimaduras e os nervos ao redor contra lesões (evitando aquela dormência crônica que era comum na cirurgia antiga).
- Compressão: O líquido empurra a veia contra a fibra do laser, garantindo que ela feche perfeitamente e expulse o excesso de sangue, reduzindo a formação de hematomas.
- Anestesia Local: Mantém a perna adormecida, garantindo que o paciente acorde sem dores fortes após o fim da sedação.
Como é a dor e o pós-operatório? (A vida real)
O Endolaser é famoso por permitir o método “Walk-in, Walk-out” (entrar andando e sair andando). Na grande maioria dos casos, o paciente recebe alta hospitalar de 2 a 4 horas após o fim do procedimento.
O que esperar nos primeiros dias:
A dor do Endolaser é frequentemente descrita pelos pacientes não como uma “dor cirúrgica de corte”, mas sim como uma dor muscular. É uma sensação de “repuxamento” ou como se você tivesse feito um treino de musculação muito pesado na coxa (aquela dor do “dia seguinte” da academia).
Isso ocorre porque a veia cauterizada causa uma inflamação local normal do processo de cicatrização. Analgésicos simples e anti-inflamatórios receitados pelo médico resolvem o desconforto.
Atividades e Repouso:
- Caminhada: É não apenas permitida, mas estimulada. Pedimos que o paciente caminhe dentro de casa a cada hora para ativar a circulação nas veias profundas e prevenir trombose.
- Retorno ao Trabalho: Para trabalhos administrativos (escritório, computador), a liberação ocorre geralmente entre 2 e 4 dias. Para trabalhos que exigem muito esforço físico ou ficar em pé parado por longas horas, pode levar de 7 a 10 dias.
- Atividade Física: Exercícios de impacto ou academia costumam ser liberados após 10 a 15 dias, dependendo da avaliação no retorno.
Endolaser vs. Cirurgia Antiga (Safenectomia)
Para deixar claro o salto evolutivo, preparamos este comparativo de recuperação:
| Critério Clínico | Cirurgia a Laser (Endolaser) | Cirurgia Clássica (Retirada) |
|---|---|---|
| Cortes (Incisões) | Nenhum. Apenas uma punção de agulha. | Cortes na virilha e no tornozelo (com pontos). |
| Hematomas (Roxos) | Mínimos ou moderados. | Extensos na face interna da coxa e perna. |
| Tempo de Afastamento | 2 a 4 dias na média. | 15 a 30 dias na média. |
| Risco de Lesão de Nervo | Menor que 2% (devido à água tumescente). | Pode chegar a 15% (causando dormência permanente). |
Para quem o Endolaser NÃO é indicado?
Apesar de ser o tratamento ideal, o Endolaser tem limitações mecânicas. A fibra óptica de vidro é flexível, mas tem um limite. Se a veia safena for extremamente tortuosa (fazendo curvas em 360 graus ou cotovelos severos), a fibra pode não conseguir passar.
Além disso, para varizes que ficam muito na superfície (logo abaixo da pele fina), o calor do laser, mesmo com a proteção de soro, pode causar queimaduras na derme. Nesses casos de veias tortuosas ou muito superficiais, o especialista vascular vai associar a Microflebectomia Estética (pequenos furos) ou a Escleroterapia com Espuma.
Dúvidas Frequentes sobre o Endolaser (FAQ)
1. Se inativar a veia safena com o laser, como o sangue vai subir?
Quando a safena está doente (insuficiente), ela já não estava ajudando o sangue a subir; pelo contrário, o sangue estava “caindo” por ela (refluxo), aumentando a pressão na perna e causando as varizes. Ao selar a safena, o organismo, de forma inteligente, redireciona esse sangue para o sistema venoso profundo, que dá conta de 90% de todo o fluxo da perna. A circulação melhora quase imediatamente.
2. Vou ficar com a perna manchada depois do laser?
O risco de manchas definitivas no Endolaser é baixíssimo, muito menor do que na técnica de aplicação de espuma. Pode haver pequenos hematomas (marcas roxas) nos primeiros 15 dias, que somem completamente se você seguir a orientação de não expor a região ao sol enquanto a pele não voltar à cor normal.
3. A cirurgia a laser usa anestesia geral?
Não. Na maioria das clínicas especializadas, utilizamos uma sedação leve (o paciente dorme um sono tranquilo) associada à anestesia tumescente (local) guiada por ultrassom. A raquianestesia (aquela injeção nas costas) é raramente necessária para a técnica exclusiva a laser.
4. Preciso usar meia de compressão após a cirurgia a laser?
Sim, é indispensável. O uso das meias elásticas de compressão graduada (geralmente por 7 a 15 dias) ajuda a fechar a veia tratada com o laser, reduz o inchaço pós-operatório e diminui o risco de complicações. A compressão é sua grande aliada na cicatrização vascular.
5. A veia safena que foi “queimada” pode voltar a abrir no futuro?
A taxa de sucesso do Endolaser é altíssima (superior a 95% em estudos de 5 anos). O processo de fibrose causado pelo calor intenso destrói o tecido venoso. A recanalização (a veia voltar a abrir) é muito rara quando a técnica é aplicada na potência e energia corretas pelo cirurgião vascular experiente.
Referências Bibliográficas
1. Siribumrungwong B, et al. A systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials comparing endovenous ablation and surgical stripping for great saphenous varicose veins. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2012.
2. Min RJ, et al. Endovenous laser treatment of saphenous vein reflux: long-term results. J Vasc Interv Radiol. 2003.
3. Rass K, et al. Comparable effectiveness of endovenous laser ablation and high ligation with stripping of the great saphenous vein: two-year results of a randomized clinical trial (RELACS study). Arch Dermatol. 2012.
4. Proebstle TM, et al. Endovenous treatment of the greater saphenous vein with a 940-nm diode laser: thrombotic occlusion after endoluminal thermal damage by laser-generated steam bubbles. J Vasc Surg. 2002.



